segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lutar nas Ruas






Que a luta
Flua
No sol
Das ruas,
Onde as ondas das almas
Dançam mais quentes

E corte, entorte,
torre
na torre,
com
certeira
mira
vermelha
de feixes
e sonhos
deflagrados

As lentes
tesas
das certezas
obtusas
em que jazem
cegas,
surdas
aos mil
sons
que saem
do calor
das ruas

as palmas
sorrateiras
do velho
senhor destronado,
espelho
expelido
espetáculo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Teoria Crítica da Molecagem e das ________Bo(r)bolet(r)as________


Manoel de Barros, esse poeta desvela, desverda os homens e nos fecunda como coco na rede, à beira do sol, brotando quentes na terra solta, refrescados tal os botos, que balançam à sombra do a mar...


"A mim parece que é mais do que nunca necessária a poesia. Para lembrar aos homens o valor das coisas desimportantes, das coisas gratuitas. Vendem-se hoje até vista para o mar, sapos com esquadrilhas de alumínio, luar com freio automático, estrelas em alta rotação, laminação de sabiás etc. Há que ter umas coisas gratuitas pra alimentar os loucos de água e de estandarte."

***

"O poeta precisa reaprender a errar a língua. Esse exercício poderá também nos devolver a inocência da fala. Se for para tirar gosto poético é bom perverter a linguagem. Temos de molecar os idiomas. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso injetar nos verbos insanidades, para que eles transmitam aos nomes os seus delírios."

Manoel de Barros, em Eu sou o Rascunho de um sonho.




Borboletas



Borboletas me convidaram a elas.

O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.

Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens

e das coisas.

Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta,

Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.

Daquele ponto de vista:

Vi que as árvores são mais competentes em auroras

do que os homens.

Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças

do que pelos homens.

Vi que as águas têm mais qualidade para a paz

do que os homens.

Vi que andorinhas sabem mais das chuvas do que

os cientistas.

Poderia narrar muita coisa ainda que pude ver do

ponto de vista de uma borboleta.

Ali até o meu fascínio era azul.


Manuel de Barros, em Ensaios Fotográficos.





segunda-feira, 4 de abril de 2011

Não existe fascismo do bem



Antes de ler este texto, peço que leiam o artigo abaixo, que Noblat publicou n´O Globo de 4 de abril de 2011. Nele o articulista defende os direitos democráticos do deputado federal Jair Bolsonaro e critica quem se indignou com as declarações homofóbicas, racistas e autoritárias do deputado e quer vê-lo fora da arena política:


Cuidado, esse artigo contém bossalidades! Acaso Noblat queria que o povo assistisse bestializado a marcha do preconceito passar? Defender a minoria que quer eliminar as minorias. Isso é meio ilógico, não?


Convido-os a uma breve reflexão filosófica sobre o assunto:


1- O que explica que os leitores do Noblat, d´O Globo, de um modo geral, não se assustem com o caráter ilógico de seu texto: defender os direitos à pluralidade democrática de uma minoria que pretende eliminar os direitos à pluralidade democrática das demais minorias?


2- Ora, o que dá sentido a este argumento não está no discurso, mas nas práticas sociais, no preconceito que salta as linhas do artigo! A maioria da classe média leitora d´O Globo quer ridicularizar a figura de Lula – ou pelo menos o editorial do jornal – pois vê nele um jeca, alguém menor, que não sabe o que fala e nunca poderia ter sido presidente. O que é isso se não preconceito de classe? Tentativa forçada de distinção social e adoção de uma postura de superioridade de status que, na prática, há muito é inexistente.


3- O que dá sentido ao texto do Noblat não é a busca por pluralidade democrática, mas o preconceito de classe! Por isso os típicos leitores d´O Globo, imbuídos de preconceito e desejo de distinção social, não percebem a irracionalidade do argumento e igualam uma brincadeira em âmbito privado, de um presidente que buscou defender os direitos das minorias (mesmo não encarando de frente os conflitos de classe), com o discurso preconceituoso que pauta a agenda pública do deputado Jair Bolsonaro, um raivoso crítico dos fundamentos básicos da democracia e da liberdade de expressão individual.

4- Neste ponto eu gostaria de afirmar que não acredito que os militares e pensionistas votem em Bolsonaro somente por questões corporativas e financeiras. O Bolsonaro tem vez entre os militares porque representa um ranço anti-democrático persistente entre eles, ranço que está difuso entre parcela de nossa população, saudosista de um regime que equilibrava os antagonismos na base do cassete e da tortura. Seu discurso fala o que muitos tem medo de falar, mas grande desejo. Muitos brasileiros ainda não se adaptaram ao cotidiano conflituoso das sociedades democráticas e idealizam um passado ditatorial supostamente "pacífico". Que nunca existiu. E vale destacar, muito da violência rural e urbana que existe hoje no Brasil é fruto da incompetente política social da ditadura militar, que foi incapaz (ou nunca teve a intenção?) de resolver o grave problema da desigualdade em nosso país.


5- O Brasil está muito atrasado, na Argentina o governo prende os torturadores das finadas ditaduras, para entrerrá-las de vez. Aqui um sujeito que defende publicamente a tortura mantem-se como deputado federal devido à imunidade parlamentar. Contudo, nas diversas ações coletivas efetivas, sejam em protestos de rua sejam manifestações virtuais, uma parcela do povo brasileiro mostrou que não tolera mais o tipo de preconceito e repressão exercido por Bolsonaro. E se existem meios legais de caçar este mandato homofóbico, racista e autoritário, essa parcela da população (eu aí incluído!) tem todo o direito de tentar tirá-lo da cena política oficial. Se possível para todo o sempre. A tolerância com a falta de limites é algo típico das democracias ou das ditaduras?

Deslegitimar as ações coletivas populares contra um deputado que infringiu leis democráticas, como faz Noblat, é que, sim, tem um caráter autoritário. A revolta popular contra tentativas de tirania é exercício e o próprio âmago da democracia.

6- Existe uma placa de agradecimento ao Bolsonaro pelas verbas das obras e equipamentos novos no (bom) Hospital Central da Aeronáutica, no Engenho Novo, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Verbas estas liberadas pelo governo Lula! Reparem bem no equívoco da centro-esquerda: deixar um extremista conservador ganhar nome com as verbas do governo Lula! Está mais do que na hora da esquerda e da centro-esquerda lançarem um nome forte entre os militares e enfrentarem seriamente a questão do lugar das forças armadas em uma democracia pluralista.

7- Por fim, por que o Noblat não fala em seu texto das ameaças de morte pelas quais o deputado federal, Jean Willys (PSOL-RJ), vem sofrendo por parte dessa minoria homofóbica, cujos direitos políticos o articulista d´O Globo defende em seu artigo? Pensemos na questão que há muitos atordoa, ou ao menos deveria aturdir: qual é o limite democrático do equilíbrio de antagonismos no plural Brasil contemporâneo?

terça-feira, 15 de março de 2011

Cais



Pura Poesia: Uma amiga sonhou que era noite de lua no litoral do Brasil, estavamos numa festa protesto gigante, fervilhavam pessoas e personalidades esquerdizantes de várias partes e culturas do mundo, todos incertos numa espécie de cais. Pra onde íamos? Que fazer? A dúvida, o mar. Eu começava a falar em alemão com amigos quando um cara bem ariano chegou me provocando, "esses judeus não sabem mesmo falar alemão". RÁ! Daí, em homenagem a boa educação loira do rapaz eu convoquei o ilustre presente, Mr. bastard Tarantino, em bom português, - no sonho ele era algo como um companheiro de militância, que chato negada!! - pra me ajudar a por um belo fim cinematográfico no dissídio fonético. (Ok, essa última frase é de consciente invenção minha, como todo bom sonho nonsense este também acabou sem desfecho. Para sorte daquele árquetipo bisonho de ariano dos anos 1930...).

Planos de Revolução



Fez-se o escarcéu,
os pescadores de chamas
da aldeia do desterro
em plena sublevação popular

vão férteis ao marchar

como ondas
tontas
cantando
mantras
a se trans-
passar
[em...

Lançar redes de insubmissão sob o luar

crescer, cantar, cantar
multiplicar
o canto,
inundar
o mar,
de luar

A revolta do fogo
navega molhada
com respingos salgados

da maré
torta
das
con
tradi
ções

não tem direção inocente nem transviada,
vem do desejo de viver intensamente,
os gozos e as dores do tempo presente.

Ahhhhhh, Pammmmm, Tummmmmm
Tummmmmmmm, tummmmmmmmm,
Pesssssca, Pesssssssca, Pessssssssssca
Bate coração, bate coração,
Puuuxaaaaaaaa, Ahhhhhhhhhhhhhh

Ao amanhercer, no último suspiro do relento,
o horizonte espiava o semblante dos aldeões,
eles sorriam, serelepes,
driblavam o anzol,
dançavam suaves
sob a luz doce da alvorada.
Felizes como peixes, que comem a minhoca
e escapam do tempo
.
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quinta-feira, 10 de março de 2011

Paulo Barros, um mestre na periferia do capitalismo


Letra do Samba Enredo 2011 da Unidos da Tijuca - Esta Noite Levarei a sua Alma: http://letras.terra.com.br/unidos-da-tijuca-rj/1760780/
Samba Enredo da Unidos da Tijuca 2011: http://www.youtube.com/watch?v=n7wMkI9k1vI
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Paulo Barros é um mestre na periferia do capitalismo. O carnavalesco da Unidos da Tijuca faz na Sapucaí o que Machado de Assis propunha na literatura: ser “homem do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos”. As ironias do enredo universalista sobre cinema, “Está noite levarei a sua alma”, são duplamente críticas. Fazem uma crítica à política estatal de terror materializada no Caveirão, veículo do Bope que adentra às favelas do Rio de Janeiro retumbando a mesma frase que nomeia o samba enredo da escola do Morro do Borel, nas últimas décadas um dos mais violentos do Rio de Janeiro. A crítica também se direciona ao próprio cinema, como um construtor das subjetividades contemporâneas na sociedade do espetáculo. Na comissão de frente (foto) é “Caronte no barco” - figura da mitologia grega encarregada de levar os recém mortos para o mundo inferior de Hades – quem transporta o público para a viajem no universo cinematográfico. Porque não falar então em subjetividades reificadas pelo pastiche da indústria cultural?
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No verso “O plano de fuga é jogo de cena”, como não lembrar da recente ocupação militar do Complexo do Alemão e da fuga desesperada dos traficantes, transformada em espetáculo televisivo pela Rede Globo? Um dos eventos mais sensacionalistas e vergonhosos da história do jornalismo brasileiro.
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Mas para Paulo Barros, como na música de Caetano, “O samba quis dizer: eu sou o cinema”. E no calor da batida popular sincopada não há espaço para atitudes blasés ou visões apocalípticas da cultura (pós?-)moderna. Autoritário, Caronte ordena: “Pare! Eu pego vocês, grita o mal condutor”. Em meio a alegria do carnaval os lugares comuns e maniqueísmos da política de repressão do estado brasileiro e da indústria cultural são desconstruídos sob governo erótico de Momo:
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“Mas deu tudo errado, não há outro lado / Esse povo me enganou / Eu sou brasileiro, amor tijucano / Roteiro sem ponto final / Coitado o barqueiro entrou pelo cano / E brinca no meu carnaval.”
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Não há Hades, não há um mundo superior e outro inferior, na folia do carnaval as oposições da moral dominante entre “bem” e “mal” ficam fluídas e são diluídas pelo povo em festa. Só resta a Caronte sair de sua rota e aderir à festa popular.
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O segundo carro alegórico da escola, “Pandora”, faz referência ao povo Navi e ao seu cultuado passáro Toruk, do blockbuster de James Cameron, Avatar. No filme o povo Navi resiste violentamente à ocupação e destruição de sua floresta e cultura para fins de exploração capitalista e o pássaro Toruk é uma das principais armas na vitoriaosa guerra de resistência popular. Retiro trecho diretamente da wikipédia, “na filosofia pagã, Pandora não é a fonte do mal; ela é a fonte da força, da dignidade e da beleza, portanto, sem adversidade o ser humano não poderia melhorar”. Este parece ser o espírito da proposta utópica de Paulo Barros, o povo é capaz de transformar os fluxos reificantes da indústria cultural em um legítimo enredo popular:
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“Eu sou Tijuca, estou em cartaz / Sucesso na tela meu povo é quem faz / Sou do Borel da gente guerreiro / A pura cadência levanta poeira.”
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Assim, Paulo Barros e os sambistas da Unidos da Tijuca, Julio Alves e Totonho, finalizam seu carnaval novamente como o Cinema Novo de Caetano: “Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo / Quero ser Ganga bruta e clara gema / Eu sou o samba viva o cinema”. Conclusão que alude à esperança representada por Pandora frente a todos os males da humanidade. Destes não podemos esquecer. A Beija-Flor foi a grande campeã de 2011, mas o verdadeiro trunfo do carnaval carioca é o carnavalesco da Unidos da Tijuca. Mas mesmo o renovador Barros tem os seus limites, como sonhar dentro das máquinas burocráticas da Sapucaí? Não sei ao certo. Parce mais fácil sonhar no rejuvenecido carnaval dos blocos de rua. Mas, salvo engano, Barros conseguiu a díficil tarefa de inserir a utopia na enrijecida forma "carnaval da sapucaí". Crítica complexa. Fluidificação dialética. Do mais, sobretudo, é preciso sonhar, é preciso sambar, é preciso cantar e alegrar a cidade...
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obs: Viva a minha Mangueira, voltamos à dignidade com homenagem ao imortal Nelson Cavaquinho!
obs2: Até que dessa vez parece que a Beija Flor ganhou merecidamente. Dá-lhe Robertão...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Índia Onda



Aonde a onda anda

minha oca é grande

arrepio aonde a onda é

índia onda manja cuca ou canja

tomba onde há frutas no pé

*

Alma onda ainda índia?

Conta com os fluxos do ar

Quicá!

Manda a onda andar

aonde eu cocorocar meu cocar.