
Manoel de Barros, esse poeta desvela, desverda os homens e nos fecunda como coco na rede, à beira do sol, brotando quentes na terra solta, refrescados tal os botos, que balançam à sombra do a mar...
"A mim parece que é mais do que nunca necessária a poesia. Para lembrar aos homens o valor das coisas desimportantes, das coisas gratuitas. Vendem-se hoje até vista para o mar, sapos com esquadrilhas de alumínio, luar com freio automático, estrelas em alta rotação, laminação de sabiás etc. Há que ter umas coisas gratuitas pra alimentar os loucos de água e de estandarte."
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"O poeta precisa reaprender a errar a língua. Esse exercício poderá também nos devolver a inocência da fala. Se for para tirar gosto poético é bom perverter a linguagem. Temos de molecar os idiomas. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso injetar nos verbos insanidades, para que eles transmitam aos nomes os seus delírios."
Manoel de Barros, em Eu sou o Rascunho de um sonho.
Borboletas
Borboletas me convidaram a elas.O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homense das coisas.Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta,Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.Daquele ponto de vista:Vi que as árvores são mais competentes em aurorasdo que os homens.Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garçasdo que pelos homens.Vi que as águas têm mais qualidade para a pazdo que os homens.Vi que andorinhas sabem mais das chuvas do queos cientistas.Poderia narrar muita coisa ainda que pude ver doponto de vista de uma borboleta.Ali até o meu fascínio era azul.Manuel de Barros, em Ensaios Fotográficos.
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