quinta-feira, 10 de março de 2011

Paulo Barros, um mestre na periferia do capitalismo


Letra do Samba Enredo 2011 da Unidos da Tijuca - Esta Noite Levarei a sua Alma: http://letras.terra.com.br/unidos-da-tijuca-rj/1760780/
Samba Enredo da Unidos da Tijuca 2011: http://www.youtube.com/watch?v=n7wMkI9k1vI
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Paulo Barros é um mestre na periferia do capitalismo. O carnavalesco da Unidos da Tijuca faz na Sapucaí o que Machado de Assis propunha na literatura: ser “homem do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos”. As ironias do enredo universalista sobre cinema, “Está noite levarei a sua alma”, são duplamente críticas. Fazem uma crítica à política estatal de terror materializada no Caveirão, veículo do Bope que adentra às favelas do Rio de Janeiro retumbando a mesma frase que nomeia o samba enredo da escola do Morro do Borel, nas últimas décadas um dos mais violentos do Rio de Janeiro. A crítica também se direciona ao próprio cinema, como um construtor das subjetividades contemporâneas na sociedade do espetáculo. Na comissão de frente (foto) é “Caronte no barco” - figura da mitologia grega encarregada de levar os recém mortos para o mundo inferior de Hades – quem transporta o público para a viajem no universo cinematográfico. Porque não falar então em subjetividades reificadas pelo pastiche da indústria cultural?
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No verso “O plano de fuga é jogo de cena”, como não lembrar da recente ocupação militar do Complexo do Alemão e da fuga desesperada dos traficantes, transformada em espetáculo televisivo pela Rede Globo? Um dos eventos mais sensacionalistas e vergonhosos da história do jornalismo brasileiro.
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Mas para Paulo Barros, como na música de Caetano, “O samba quis dizer: eu sou o cinema”. E no calor da batida popular sincopada não há espaço para atitudes blasés ou visões apocalípticas da cultura (pós?-)moderna. Autoritário, Caronte ordena: “Pare! Eu pego vocês, grita o mal condutor”. Em meio a alegria do carnaval os lugares comuns e maniqueísmos da política de repressão do estado brasileiro e da indústria cultural são desconstruídos sob governo erótico de Momo:
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“Mas deu tudo errado, não há outro lado / Esse povo me enganou / Eu sou brasileiro, amor tijucano / Roteiro sem ponto final / Coitado o barqueiro entrou pelo cano / E brinca no meu carnaval.”
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Não há Hades, não há um mundo superior e outro inferior, na folia do carnaval as oposições da moral dominante entre “bem” e “mal” ficam fluídas e são diluídas pelo povo em festa. Só resta a Caronte sair de sua rota e aderir à festa popular.
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O segundo carro alegórico da escola, “Pandora”, faz referência ao povo Navi e ao seu cultuado passáro Toruk, do blockbuster de James Cameron, Avatar. No filme o povo Navi resiste violentamente à ocupação e destruição de sua floresta e cultura para fins de exploração capitalista e o pássaro Toruk é uma das principais armas na vitoriaosa guerra de resistência popular. Retiro trecho diretamente da wikipédia, “na filosofia pagã, Pandora não é a fonte do mal; ela é a fonte da força, da dignidade e da beleza, portanto, sem adversidade o ser humano não poderia melhorar”. Este parece ser o espírito da proposta utópica de Paulo Barros, o povo é capaz de transformar os fluxos reificantes da indústria cultural em um legítimo enredo popular:
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“Eu sou Tijuca, estou em cartaz / Sucesso na tela meu povo é quem faz / Sou do Borel da gente guerreiro / A pura cadência levanta poeira.”
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Assim, Paulo Barros e os sambistas da Unidos da Tijuca, Julio Alves e Totonho, finalizam seu carnaval novamente como o Cinema Novo de Caetano: “Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo / Quero ser Ganga bruta e clara gema / Eu sou o samba viva o cinema”. Conclusão que alude à esperança representada por Pandora frente a todos os males da humanidade. Destes não podemos esquecer. A Beija-Flor foi a grande campeã de 2011, mas o verdadeiro trunfo do carnaval carioca é o carnavalesco da Unidos da Tijuca. Mas mesmo o renovador Barros tem os seus limites, como sonhar dentro das máquinas burocráticas da Sapucaí? Não sei ao certo. Parce mais fácil sonhar no rejuvenecido carnaval dos blocos de rua. Mas, salvo engano, Barros conseguiu a díficil tarefa de inserir a utopia na enrijecida forma "carnaval da sapucaí". Crítica complexa. Fluidificação dialética. Do mais, sobretudo, é preciso sonhar, é preciso sambar, é preciso cantar e alegrar a cidade...
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obs: Viva a minha Mangueira, voltamos à dignidade com homenagem ao imortal Nelson Cavaquinho!
obs2: Até que dessa vez parece que a Beija Flor ganhou merecidamente. Dá-lhe Robertão...

2 comentários:

Zonzon from FR disse...

Hi, i didn t understood everything, but good analysis.

Thalita disse...

É Alex...vc é terrível hahaha, brincadeira. Massa ter outros pontos de vista sobre o carnaval.